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Casa Tânia Trajano: Selo Ouro em sustentabilidade do GBC Brasil

Arquiteta com 37 anos de formação, (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie , SP, de  1978 à 1982),  há 4 anos voltei meu olhar para a arquitetura sustentável onde adquiri  formação específica em vários cursos oferecidos pelo GBC Brasil, ( Green Building Council  –  www.gbcbrasil.org.br ) e obtive certificação como consultora GBC Brasil Casa. Durante a carreira desenvolvi  e executei  vários projetos de arquitetura de interiores em residências, lojas, escritórios,  reformas e acompanhei obras também , onde a utilização dos materiais , dos recursos naturais e a gestão do canteiro de obras sempre me causavam inquietação. A junção de projetar e acompanhar a execução de  obras durante minha carreira profissional,  foi muito enriquecedor para mim, pois ampliou minha visão do conjunto como um todo .

Tal inquietação me fez naturalmente seguir no caminho de reduzir,  reutilizar e reciclar, ( RRR) que é o caminho da sustentabilidade.

Durante a vida morei em várias cidades do Brasil até que chegou o momento de efetivamente colocar em prática tal inquietação.

Há 20 anos atrás eu queria um carro elétrico ( eu teria que importar para o Brasil …) , porém naquela  época também , nem se falava em produzir sua  própria energia elétrica através  do sol e em  sua própria casa . Até que chegou o momento  e começou a pôr em prática o meu sonho.

É lógico que existem vários outros pontos para se tornar uma casa sustentável e por esse motivo fui buscar conhecimento específico para poder executar esse objetivo.

A partir daí um novo horizonte se abriu para mim e senti realmente uma mudança de paradigma  para se  projetar, pois  além da  técnica , a sustentabilidade é um tripé onde nosso olhar se volta para as questões ambientais, econômicas e sociais. Dentre vários , vou  citar apenas um item de cada . Questões ambientais : redução do consumo de água e energia. Questões econômicas : diminuição dos custos para operacionalização de uma habitação. Questões sociais : inclusão social e capacitação profissional .

Para tal,comecei a procurar alguém da área de sustentabilidade e encontrei a engª  Angela Macke que estava construindo sua própria residência num projeto piloto de certificação específica de casas do GBC Brasil, e hoje a casa dela Casa Eudoxia , também é selo Ouro.  Angela me inspirou a trilhar o mesmo caminho dela.

Decidi  então buscar a certificação,  a fim de que a minha casa tivesse um carimbo de sustentabilidade com reconhecimento oficial , como um próprio aprendizado profissional  para mim ( e também satisfação pessoal de carreira) .  Fui de encontro ao Referencial GBC Brasil Casa , inscrevi minha casa e contratei a engª Angela para ser minha consultora. Apesar de , por incentivo dela eu também ter feito o curso de certificações, até hoje considero a Angela, minha mestra nesse caminho da sustentabilidade e sou muito grata à ela.

A engª Angela me indicou o Escritório de Arquitetura Oliveira Cotta, com expertise em certificações corporativas e conforto ambiental  e começou uma agradável parceria no desenvolvimento do projeto.

Eu defini o lay-out da casa ,  e o Escritório Oliveira Cotta desenvolveu  a volumetria e todo o detalhamento  com maestria.

Participei de todo o processo, assumindo vários papéis ao mesmo tempo assim como proprietária, co-autora do projeto arquitetônico, cliente, gestora e principalmente como articuladora do  Projeto Integrado ( ferramenta indispensável nos projetos sustentáveis onde a participação da equipe multidisciplinar, incluída a construtora,  desde a criação do projeto é fator fundamental  para a integração de todos os assuntos referentes à projeto e obra). Com a intenção de divulgar os conceitos de sustentabilidade e demonstrar  que as técnicas utilizadas são facilmente aplicadas em qualquer projeto, partilhei tais conhecimentos no Instragram @ambience.arq.br  e também abrimos a obra, numa visita dirigida para estudantes da PUCC .

Durante  14 meses desenvolvemos o projeto arquitetônico e os projetos complementares, onde o diferencial foi  justamente inserir as equipes de projetos complementares , juntos na mesma mesa, desde a etapa mais inicial do projeto. Período esse que demandava ajuste de agenda para as reuniões presenciais de toda a equipe.

A obra levou 21 meses ( fatores de atraso de entrega de materiais, postergaram o final da obra). Ao todo, entre projeto e obra foram 3 anos.

A decisão de investir numa casa sustentável perpassou por vários aspectos, primeiramente era um chamamento íntimo meu, depois questões como captação de água de chuva para reuso, produção de energia elétrica através da energia solar, redução de consumo de água e energia, reciclagem de detritos de obra, eficiência energética,  paisagismo autossuficiente, arquitetura passiva, automação, busca de soluções alternativas ao invés das convencionais  eram assuntos que me fascinavam.

Mergulhando nesse novo mundo conseguimos desmistificar muitas coisas dentre as quais,  que uma casa sustentável  não é a casa do Tarzan no meio do mato:  não , uma casa sustentável pode ser contemporânea, com muita tecnologia aplicada e no meio da cidade. Outro ponto a desmistificar é com relação ao custo. O próprio GBC  Brasil solicitou uma pesquisa junto à FGV e o custo de uma construção sustentável gira em torno de 6 a 7% do custo total da obra e em contrapartida o custo de operacionalização da habitação reduz cerca de 15%, além de que uma construção sustentável e certificada agrega  valor no preço de venda do imóvel.  E também  já se fala em redução de valor de IPTU para imóveis comprovadamente sustentáveis ( tal redução depende da legislação pública de cada município ).

Quando optei por certificar a casa,  fizemos uma reunião inicial onde analisamos todos os itens que fazem parte do documento de certificação o Referencial GBC Brasil casa, é um extenso manual  subdividido em 8 itens: 1- Implantação,2- Uso Racional da água, 3-Energia e atmosfera, 4-Materiais e Recursos, 5-qualidade ambiental interna, 6- Requisitos sociais, 7-Inovação e projeto e 8- Créditos regionais. Cada uma dessas 8 partes  tem  alguns pré-requisitos que são critérios que definem o  desempenho mínimo da construção e é uma característica obrigatória do projeto que busca uma certificação .

Além desses pré- requisitos, o Referencial sugere créditos que são recomendações  que representam uma faceta particular de sustentabilidade que contribui para uma maior eficiência no projeto. Tais créditos foram profundamente analisados por toda equipe e dentre todos os créditos sugeridos optamos por selecionar os que consideramos viáveis de serem atendidos ( tanto por questões técnicas, quanto por questões econômicas e também por estarem disponíveis no mercado).

Particularmente no item 4- Materiais e recursos, encontramos muitas dificuldades. Esse item trata basicamente de  madeiras legalizadas e certificadas, materiais com certificação em sustentabilidade, ciclo de vida,  materiais ambientalmente preferíveis, não contaminantes . Tudo que se refere à certificação é necessário ser comprovado através de documentação competente, pois projeto e obra passam por auditoria .

Muitas empresas que produzem e fornecem materiais , desempenham suas tarefas de forma primorosa, com  qualidade , capacidade técnica e materiais de primeira linha, mas no entanto não tem certificação em sustentabilidade de seus produtos;  e por estarem estabelecidas no mercado com garantida credibilidade , isso não as impede de continuar produzindo .  À medida que a demanda por construções sustentáveis certificadas aumentar, naturalmente tais empresas se adequarão a essas documentações  e as empresas que ainda não estiverem com qualidade técnica alinhada aos requisitos de sustentabilidade terão que se organizar para continuarem no mercado. Será uma seleção natural, que o próprio planeta está pedindo.

O universo da sustentabilidade é bem amplo e esse oito itens ( com todas as suas subdivisões ) se  complementam  e se entrelaçam no desenvolvimento do projeto .

Basicamente  o objetivo de uma casa sustentável é causar o menor impacto possível no meio ambiente , ser economicamente viável e socialmente includente.  Daí ,  implantar a edificação num local preferencialmente desenvolvido ,  reduzir  o uso de água ,  de energia,  e de recursos naturais, priorizando materiais cujas matérias primas sejam recicladas  e ou  recicláveis, utilizar  materiais comprovadamente certificados, reduzir  ao máximo os detritos da obra  enviando tais detritos às unidades recicladoras, buscar eficiência energética através de uma arquitetura passiva, projetar um paisagismo com espécies do ecossistema local  que estão adaptadas ao regime de chuvas e também promovem a biodiversidade, promover a economia local adquirindo os produtos e mão de obra nas proximidades da obra,   preferencialmente de empresas  que tenham seus funcionários registrados em carteira para cada vez mais tais fornecedores estejam incluídas formalmente no mercado de trabalho, promover a economia circular, capacitar toda a equipe e instruí-los quanto aos conceitos de sustentabilidade para que sejam elementos multiplicadores em suas comunidades.